top of page

Música, arte e poesia dão novo sentido às ruas

  • Foto do escritor: Flama Coletiva
    Flama Coletiva
  • 29 de mai. de 2020
  • 4 min de leitura

As batalhas de rap e os slams ocupam diversos cantos da cidade e representam resistência

Batalha da Alfândega em março de 2020 após a revitalização do Largo. Foto: Victoria Morais


Parte da cultura de rua, as batalhas de rap são um movimento forte na Ilha e na Grande Florianópolis. Composto por mestres de cerimônia, b-boys/b-girls, djs e pela comunidade que aprecia o duelo dos rimadores nas modalidades sangue e conhecimento. Esses encontros ocupam diversos espaços da cidade gerando lazer, cultura e reflexão, assim como os campeonatos de poesia, conhecidos como slams.


No final dos anos 80, o rap começou a surgir em Florianópolis. Parte da terceira geração do rap em Floripa o rapper, apresentador e afro-empreendedor Negro Rudhy relembra os diversos tipos de batalha que existem e o surgimento aqui na cidade. Negro Rudhy afirma que o movimento começou através das batalhas de b-boys onde hoje existe a Batalha da Alfândega. As batalhas de rima inicialmente reuniam menos pessoas e representam cultura e arte feita por meio da música, dança e resistência.


Negro Rudhy sobre o movimento hip-hop e ocupação dos espaços públicos para Flama Coletiva


O documentário de 2016, A Causa e Legitima - A Batalha da Alfândega é o Direito à Cidade, debate a importância desse movimento e da ocupação dos espaços públicos e do direito à cidade. O encontro de diversas pessoas fornece o acesso à cultura, ao lazer e engloba diversas atmosferas em um só local. Com o passar dos anos as batalhas ganharam maiores proporções sendo realizadas em todos os cantos da Ilha e na Grande Florianópolis.


Ao total, cerca de nove batalhas eram realizadas semanalmente tendo um encontro por dia reunindo muitas pessoas. A ocupação dos espaços públicos pelas batalhas tornou-se um problema sendo alvo de ações policiais para a dispersão do movimento. Diversas tentativas de dar fim não só a Batalha da Alfândega foram incisivas e contínuas: abordagens policiais, denúncias e reclamações cercavam os movimentos.


Batalha da Alfândega realocada no Terminal Cidade de Florianópolis. Vídeo: Alessandra Vieira


De acordo com o mestre de cerimônia que fez a frente da organização durante 2009 a 2018 Mozart Renno, popularmente conhecido como Cubano, a primeira memória do hip hop unido em Florianópolis foi em meados de 2006 e 2007. Passando pelo Largo da Alfândega ele viu diversas pessoas reunidas ao som do rap junto do cheiro de sprays no ar, b-boys dançando e mc's fazendo freestyle.


“Nessa época Batalha da Alfândega, não era nem um sonho ainda, quem estava lá representando eram lendas do Hip-Hop Ilhéu”, relembra Cubano.


Algum tempo depois durante 2008 e 2009, sem pretensão de articular qualquer ato que pudesse ser chamado de evento, movimento ou batalha, ele se reuniu com alguns amigos de diversas áreas e bebendo um galão de vinho e conversando sobre rap, o freestyle fluiu. De acordo com o mc, algumas pessoas que passavam pelos arredores se interessaram pelo movimento. Nesse momento, um deles teve a idéia de voltar na outra semana, no mesmo lugar e horário.


De acordo com o mc Cubano, fazer parte da organização ou até ser platéia nesse tipo de encontro é uma grande responsabilidade. Além disso, a diversidade das batalhas que abraça jovens, adultos, idosos, crianças, pobres, ricos e qualquer outra "classificação" que possa existir é essencial. Com o crescimento dos movimentos a repressão acontece. O corte de estrutura, a circulação de falsas informações, a agressão por parte de policiais que não dão satisfação alguma são questões que se repetem inúmeras vezes.


“Acredito na capacidade do estado em apoiar esse tipo de movimento, mas é necessário partilhar informações entre instituições, investir e acreditar.”, avalia Mozart.


Batalha da Alfândega em março de 2020 após a revitalização do Largo. Foto: Victoria Morais


O mc, poeta e artivista Daniel Guedes Couto, popularmente conhecido como DKG - Dekilograma se mudou para Florianópolis em 2018 e passou a fazer parte das batalhas de conhecimento e de sangue. Percebendo o movimento das competições de poesias que aconteciam no Rio Grande do Sul e no Brasil ele começou a organizar junto de outras pessoas ligadas à poesia e às batalhas o primeiro slam da cidade: o Slam Continente. Com encontros de 15 em 15 dias quase dois anos se passaram com a realização do evento. Surgiram outros movimentos organizados como o Slam das Tribos, que é feito pelo pessoal da Batalha da 196 de Biguaçu e passou-se a ver esses eventos como espaços de resistência.


Slam Continente, em 2017. Vídeo: Alessandra Vieira


De acordo com o artivista que participou de diversos movimentos na cidade esses eventos são pontos de encontro, de referência cultural e de articulação da juventude e dos adultos da cidade. Por parte do pessoal ser de periferia e muitas vezes possuir pouco acesso ao teatro, cinemas, shows esses espaços públicos ocupados são uma forte forma de expressão e possibilitam uma construção e desconstrução de si.


DKG sobre os slams, as batalhas e a importância dos espaços públicos para a Flama Coletiva


As falhas das instituições na problemática da ocupação dos espaços públicos segue ocorrendo. Os movimentos se perpetuam, se renovam, trocam de localização e as reclamações de perturbação de sossego, alegações de desobediência, a abordagem abusiva e principalmente a luta em resistir e fazer arte e cultura nas ruas da cidade ainda que seja algo antigo, é recente e constante.


Polêmica


Em 2019, a Batalha das Minas, que ocorria na avenida Hercílio Luz, no centro de Florianópolis, característica por ser cercada de bares e movimento todos os dias, foi violentamente interrompida pela Polícia Militar, que alegou receber reclamações de moradores das redondezas. Tiros de bala de borracha, caixa de som destruída e opressão se repetiu mais uma vez tentando dispensar um movimento legítimo que semanalmente denuncia injustiças sociais, debate questões femininas e desenvolve arte e cultura em uma região que é naturalmente conhecida e caracterizada pelo movimento noturno.


As tentativas de dispersar a população desses espaços e por fim nesses movimentos reacendem uma grande discussão: repensar a quem pertence Florianópolis, tal qual as tratativas policiais quando a cidade é usufruída de forma legítima pela população. Debater os espaços públicos assim como sua utilização, possibilitar as manifestações culturais de rua e dar espaço ao protagonismo dos cidadãos que pertencem e manifestam-se de diversas formas remodelando o direito à cidade e democratizando os espaços públicos.

 
 
 

Comentários


bottom of page